19 de novembro de 2016

GOIÂNIA/GO - POR DIFERENÇAS IDEOLÓGICAS, PAI MATA FILHO E DEPOIS SE MATA

Pai mata filho por discordar de apoio do jovem a invasões escolares

Após efetuar disparos no garoto, que era estudante de Matemática da Federal de Goiás, homem se deitou sobre o corpo e deu um tiro na têmpora

Juliana Diógenes e José Maria Tomazela,
O Estado de S.Paulo
16 Novembro 2016


SÃO PAULO - Um universitário foi morto após ser atingido por quatro tiros dados pelo pai, que em seguida se suicidou, em Goiânia, na terça-feira, 15. O estudante de Matemática da Universidade Federal de Goiás (UFG), Guilherme Silva Neto, de 20 anos, queria acompanhar uma reintegração de posse que seria cumprida na UFG, tomada por estudantes, mas foi proibido pelo pai, o engenheiro Alexandre José da Silva Neto, de 60 anos.

O engenheiro discordava do envolvimento do filho em movimentos sociais. A mãe do jovem, Rosália de Moura Rosa Silva, fez carreira na Delegacia da Mulher. Conforme relatos dados por ela e por outras testemunhas à Polícia Civil, o autor do crime “não concordava com o comportamento do filho, que se vestia de forma alternativa, com coturnos, calça jeans com as barras para dentro, jaquetas jeans, colares, cabelo e barba grandes”. Alexandre não aceitava “o estilo revolucionário do qual (o filho) era integrante, participando de movimentos estudantis e de manifestações contrárias às medidas governamentais, como as invasões de colégios e prédios públicos”.
Foto: Reprodução
Guilherme Silva Neto, de 20 anos, estudava Matemática da Universidade Federal de Goiás (UFG)
O delegado Hellynton Carvalho, que estava de plantão e atendeu o caso, disse que a tragédia foi causada pela intolerância extrema com a divergência de ideias. Pai e filho viveriam uma relação conflituosa havia quatro anos. “Temos material mostrando que o estudante contestava o governo, defendia o voto nulo e não só participava, como incentivava, as invasões. O pai, até em razão da idade, não admitia os arroubos do filho e isso causava conflitos. Há relatos de discussões e ameaças que serão apuradas no decorrer do inquérito.”

Premeditação
Segundo o delegado, embora não haja outra linha de investigação, o inquérito vai seguir o curso formal, com perícias, depoimentos de familiares e testemunhas. “Vamos investigar as circunstâncias, descobrir a origem da arma de fogo e se houve premeditação ou algo que possa ter influenciado para o resultado.” Conforme Carvalho, a mulher do engenheiro informou que o marido estava com depressão, mas não vinha se tratando. “Esse fato pode ter contribuído para o desfecho. Em quatro anos trabalhando com homicídios, não tinha visto um caso assim.” 

No dia da tragédia, o estudante pretendia acompanhar a desocupação da UFG e o pai impediu. Depois de uma discussão acirrada em casa, Guilherme teria assentido em não ir à desocupação. Quando o pai saiu, o estudante avisou a mãe que ia apenas ver a movimentação e saiu a pé, levando uma mochila. O delegado espera ouvir os depoimentos para confirmar se Alexandre já saiu armado de casa, o que confirmaria a hipótese de premeditação. Segundo ele, o pai soube que o filho tinha saído e foi atrás, de carro, alcançando o estudante na Praça do Avião, onde disparou o primeiro tiro.

Guilherme ainda correu e tentou voltar para casa, na esquina da Avenida República do Líbano com a Rua 25-A, mas o pai o alcançou e fez novos disparos. Em seguida, ele se debruçou sobre o corpo do filho caído, recarregou a arma – uma pistola 6.35 – e atirou contra a própria cabeça. A mãe ouviu os tiros, saiu de casa e encontrou os corpos. 

Acirramento
Em nota oficial, a reitoria da Universidade Federal de Goiás (UFG) lamentou a morte do estudante e afirmou que as invasões de prédios escolares durante as manifestações estudantis causam o acirramento dos conflitos. O jovem estudava no câmpus de Goiânia, um dos seis que estão tomados no Estado. “As ocupações, que já se estendem por mais de três semanas, têm provocado o acirramento de posições antagônicas no seio da própria comunidade universitária e gerado tensões e situações de conflito preocupantes, tanto em Goiânia quanto na Regional Jataí, colocando em risco a integridade física das pessoas”, diz a nota.

Já a União Nacional dos Estudantes (UNE) disse que “embora o caso revele uma relação particular entre pai e filho, a UNE enxerga com preocupação o fato de que a morte de Guilherme tenha envolvido uma discussão sobre as suas preferências políticas e a intolerância que isso causou no ambiente familiar”. O Diretório Acadêmico dos Estudantes de Matemática da UFG optou por “oferecer solidariedade à família do estudante”

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