24 de fevereiro de 2016

BRASÍLIA/DF - UM RABO À MOSTRA

O conselheiro da presidente

24 Fevereiro 2016 | 02h 55

A prisão do marqueteiro João Santana em nova fase da Operação Lava Jato atinge em cheio o centro do poder em Brasília, uma vez que fica exposta a forte ligação de confiança entre a presidente Dilma Rousseff e o homem que, mais do que principal estrategista de suas duas campanhas eleitorais, tem sido um de seus principais conselheiros, frequentemente consultado sobre questões políticas, além de assídua participação na elaboração de estratégias de comunicação e marketing do governo. O grau de confiança depositado por Dilma Rousseff em João Santana deixa a presidente da República em situação difícil e constrangedora diante das graves suspeitas sobre ilicitudes praticadas pelo marqueteiro em suas relações profissionais com o governo e o PT.

Em resumo, Santana e sua mulher e sócia, Mônica Moura, foram presos porque são suspeitos de receber, em contas no exterior, como pagamento por serviços prestados ao PT na campanha presidencial de 2014, US$ 7,5 milhões provavelmente desviados da Petrobrás.

Enquanto o PT e seu principal líder, Lula, afundam-se no mar de lama que criaram, Dilma Rousseff tem conseguido permanecer distante de suspeitas de envolvimento nas ilicitudes que se tornaram prática habitual na gestão da coisa pública, escudando-se por detrás da imagem de lutadora idealista que não tem sequer “conta no exterior”. Nessa linha, optou claramente por antepor-se à imagem do desmoralizado presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, envolvido dos pés à cabeça em denúncias de corrupção. Manteve-se distante dos companheiros de partido e aliados que se lambuzaram, tentando transmitir para o público a imagem da idealista que não suja as mãos na corrupção, que combate “a ferro e fogo”.

Se é até possível acreditar que, por convicção pessoal, Dilma não procure se beneficiar materialmente das facilidades que o poder proporciona, mais difícil de crer e explicar é que não perceba o que acontece em seu entorno. E essa é a questão que inevitavelmente assalta a consciência de qualquer pessoa minimamente informada num momento como este, em que o guru em marketing eleitoral e conselheiro político da presidente da República é preso no curso de investigações sobre o escândalo da Petrobrás e suas implicações com a eleição presidencial.

Depois de quase dois anos de exaustiva investigação da Lava Jato e da condenação de dezenas de réus, muitos deles confessos, pelos mais variados crimes relacionados ao bilionário propinoduto montado na Petrobrás, é impossível de imaginar, a não ser de má-fé, que esse monumental esquema de corrupção tenha, durante quase uma década, desviado recursos da estatal e nem um mísero centavo tenha caído nos cofres do PT. Dilma parece não ver isso.

A expertise de João Santana – que tem em seu currículo meia dúzia de eleições presidenciais vitoriosas na América Latina – custa caro. Mas isso nunca foi problema para o PT, que aprendeu que pode contar com bons amigos para armar habilidosas engrenagens capazes de fazer o dinheiro que está aqui logo em seguida aparecer ali, geralmente bem longe do Brasil. Essa prática, aliás, já fora utilizada pelo PT para pagar seu marqueteiro da campanha eleitoral de 2002, Duda Mendonça, que a confessou, lacrimoso, em depoimento a uma CPI em Brasília. Mas os tempos eram outros e o País vivia ainda o clima mítico em que a obra de redenção social em pleno curso não poderia ser maculada por detalhes insignificantes. Demorou um pouco para pelo menos parte da consciência nacional se dar conta de que populismo e malandragem são velhos parceiros.

É claro que esse novo e espetaculoso episódio do processo de saneamento a que a Operação Lava Jato e congêneres estão submetendo a administração pública será como lenha na fogueira do impeachment de Dilma Rousseff, seja por crime de responsabilidade, seja por violação das regras eleitorais. E se isso vier a acontecer será no mínimo irônico verificar que o combustível terá sido fornecido por quem contribuiu decisivamente para as duas eleições de Dilma.

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1 comentários:

Anônimo disse...



colunistas

JANIO DE FREITASEfeitos secundários

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25/02/2016 02h00

Um mistério, mas nem tanto. O juiz Sergio Moro expôs por escrito, os procuradores falaram à vontade, representantes da Polícia Federal falaram também, mas ninguém disse o essencial para dar sentido a essa operação 23 da Lava Jato: por que, afinal de contas, o marqueteiro João Santana "recebeu propina"US$ 3 milhões da Odebrecht, se nada tem a ver com intermediação de contratos da Petrobras, nem se sabe de outras atividades suas que expliquem comissões da empreiteira?

Também não há, nas tantas palavras daquelas vozes da Lava Jato, nenhum indício, consistente ou não, de que o dinheiro da Odebrecht no exterior seja proveniente da Petrobras, como "desconfiam". Nem que tenha qualquer relação com campanha no Brasil.

A falta até de mínima sustentação das exposições de Sergio Moro, no próprio decreto de prisão de Santana e Mônica, como nas falas dos procuradores e policiais é nada menos do que escandalosa. Ou deveria sê-lo.

O jornalista Fernando Molica levantou, para sua coluna no carioca "O Dia", o uso de determinadas palavras no decreto de prisão do casal. Sergio Moro diz ser algo "possível" 19 vezes. "Já 'possivelmente' foi escrita em 3 ocasiões, 'provável' em 5. Moro utilizou alguns verbos no futuro do pretérito: 'seria' aparece 14 vezes; 'tentar/tentariam' merecem 16 aparições".

Ou seja, o piso do decreto de Moro é o texto das vaguidões, das inexistências e dos pretendidos ilusionismos.

Anterior por poucos dias, o outro caso gritante na última semana fezHélio Schwartsman considerar cabível a hipótese de que, suscitada em momento de ataque mais agudo a Lula, a história de Fernando Henrique com Mirian Dutraemergisse como um chamariz das atenções. Em tal limite, e sem ameaçar suas veracidades, a hipótese é admissível. E, por força, desdobra-se em outra.

Ainda que Sergio Moro, os procuradores e a PF dispusessem de elementos convincentes para aprisão de Santana e Mônica, seria preciso fazê-la com a urgência aplicada? Nenhum fato a justificou. O risco de fuga era zero, já estando ambos no exterior. Mas o problemático assunto das remessas e contas externas de Fernando Henrique foi sufocado com mais facilidade. Não que se pudesse esperar um tal assunto levado a sério: a Procuradoria Geral da República, os procuradores e a Polícia Federal não foram capazes de emitir, dirigida à população como devido, sequer uma palavra a respeito. Mas sempre poderia ocorrer algum desdobramento a exigir mais para sufocá-lo.

Além disso, a oportunidade foi perfeita para o fato consumado de ampliar o alcance de Sergio Moro e da Lava Jato, apesar da duvidosa legalidade do novo alcance. O âmbito legal das ações de Moro e da Lava Jato não inclui eleição, campanhas, Santana, e atividades das empreiteiras fora do sistema Petrobras. Extendê-lo já foi tentado, mas o Supremo Tribunal Federal barrou-o. Mas é por aqui que se pode entender o serviço prestado por tanto "possível" e "possivelmente" e "seria": misturam o marqueteiro com dinheiro da Petrobras. E com as campanhas de Lula e de Dilma, que assim são postas na jurisdição das ações da Lava Jato e de seu poderoso juiz.

Sergio Moro, os procuradores e policiais federais falaram muito sem dizer o essencial. Mas já se entende parte dele.

FANTASMAS

Não tenho apreço por João Santana. Sua demissão da campanha eleitoral na República Dominicana me parece positiva para os dominicanos. Com isso, porém, a funcionária fantasma de José Serra pode voltar, também, a Brasília. Para ganhar outra vez, que tristeza, só como fantasma do Senado. Um efeito secundário da ação de Sergio Moro.