14 de fevereiro de 2014

APESAR DE VOCÊ, PREFEITA, AMANHÃ SERÁ OUTRO DIA!


Apesar de você
amanhã há de ser outro dia...
(ou: Pela imprensa livre, democrática e soberana em Itaituba)


NOTA DO BLOG: Cara amiga e eterna professora Jussara Whitaker, como historiador e já chegando aos quase 5.0, desejo fazer um pequeno adendo a esse brilhante ensaio, quanto ao termo Ditadura Militar. Gosto de mencionar que no Brasil houve a Ditadura Civil-Militar posto que, se não houvesse a conivência/conveniência de alguns políticos e empresários não haveria as condições para tal Estado de Exceção. Vide um documentário muito bom chamado Cidadão Boilesen (que tenta impingir sobre tal cidadão o sinal de herói!), que retrata muitíssimo bem esse relacionamento mútuo de troca de favore$$. E Itaituba, através desse novo governo, e com a conveniência e conivência de políticos, empresários e cidadãos de última categoria, tentam nos calar, humilhar, violentar nosso direito de discordar, ameaçar! Vou honrar minha mãe que lutou, esbravejou, educou e,graças a Deus, deixou um legado de compromisso com a Verdade, Moral e a Ética!  

Em 1970 Chico Buarque compõe a música ‘Apesar de você’, onde através de interessantes metáforas fala de um cotidiano vivido pelo povo brasileiro durante os anos de ditadura militar. Esta música, assim como outras que foram criadas por compositores inconformados com os ‘ anos de chumbo’, demonstra a falta de liberdade, a ausência total de cidadania compartilhada, a atuação da censura contra a liberdade de expressão política, artística, jornalística, e outras mais.


Naquele momento da história brasileira, (1964-1985) os movimentos sociais, os partidos políticos, as organizações democráticas, estudantes, professores, artistas, pais e mães de família, trabalhadores, foram impedidos, pela força da chibata, de exercerem os seus mais elementares direitos: de escolha, de voto, de discordar, de opinar, de se organizar. Eu poderia aqui enumerar dezenas e dezenas de exemplos de castração da dignidade humana, do abuso do autoritarismo, da suspensão das garantias institucionais, das prisões de sindicalistas e parlamentares de oposição, o fechamento do Congresso Nacional, mas ilustro este contexto citando mais uma vez parte da música do Chico: “hoje você é quem manda, falou tá falado não tem discussão...”, e me atenho somente a comentar sobre um segmento da sociedade brasileira que recebeu violento choque de intervenção militar: o dos meios de comunicação.


Uma categoria profissional, a dos jornalistas, foi duramente engessada durante este período. A ação da censura aos jornais, rádio, televisão, revistas, com a promulgação do AI -5, o Ato Institucional número 5, em dezembro de 1968, estabeleceu a censura prévia à imprensa, ou seja, o governo passa a intervir nos meios de comunicação, para suprimir matérias e artigos jornalísticos que não agradavam as autoridades militares, ou recomendando matérias, ou ainda obrigando os proprietários dos meios de comunicação a despedirem jornalistas que se recusavam a bater continência. Não era admitida nenhuma publicação que fosse contrária ao regime político, inclusive a censura policial passa a ser uma constante, quando a redação de jornais são invadidas e o maquinário depredado, jornalistas e editores sendo presos. Lívia Assad, em 2006 publica um artigo intitulado Jornalismo e Ditadura Militar no Brasil: da censura à resistência nas redações, onde comenta que:

A submissão de textos, fotos, ilustrações e charges aos censores da Polícia Federal restringiu dramaticamente a liberdade de expressão e as possibilidades de divulgação de certas informações julgadas inadequadas, suspeitas ou subversivas pelo regime.


Os comandos das redações recebiam, frequentemente, comunicados da Polícia Federal informando que temas ou acontecimentos não deveriam ser noticiados, ou que deveriam merecer tratamento cauteloso e contido. Tais ordens eram cumpridas à risca pelas empresas jornalísticas, sob pena de punições, como abertura de processos judiciais e ameaças de suspensões de circulação, e represálias, que incluíam, por exemplo, corte de verbas publicitárias do governo federal.

Apesar disto a imprensa brasileira resistiu a esta investida, acreditando que a liberdade de expressão haveria de emergir em meio ao caos político, e Chico Buarque confirma esta certeza cantando: “apesar de você amanhã há de ser outro dia. Você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia”. 


Passados os anos, vivemos hoje a garantia de uma democracia às custas da luta do povo brasileiro, das grandes e pequenas intervenções de trabalhadores, estudantes, imprensa, organizações civis e politicas, dos ecos da “Diretas já!”, da atitude corajosa de parlamentares, lideranças sindicais, enfim, de uma mobilização popular que fez com que voltássemos a eleger nossos presidentes, a conquistar a criação de uma Constituição cidadã, e a entender a importância de uma imprensa livre que é, sem dúvida, um dos pilares de sustentação do estado democrático e de direito. 


É pela imprensa que passamos a melhor conhecer nossos direitos, onde salpicam opiniões e ideologias diversas que nos auxiliam na formação do nosso pensamento. Nada é democrático, nenhum estado, nenhuma sociedade é democrática se seus homens não tiverem meios de expressar seus pensamentos.

Portanto, busco novamente Chico Buarque que na composição ‘ Vai passar ’, nos diz em um de seus versos:


Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear.

FONTE: https://www.facebook.com/jussara.whitaker?fref=ts

Reações:

1 comentários:

Anônimo disse...

Querida Jussara,
Parabéns pela brilhante publicação.
A lamentável repercussão dos atos praticados contra a liberdade de expressão, observados ultimamente em nossa sociedade, nos remete ao período mais sombrio de nossa história, que este ano completa meio século.
Período em que colocavam em prática a censura, a perseguição política, a supressão de direitos constitucionais, a falta total de democracia e a repressão para aqueles que eram contrários ao governo de exceção.
Uma severa política de censura foi colocada em execução. Jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão artística foram censuradas. Muitos professores, políticos, músicos, artistas e escritores foram investigados, presos, torturados ou exilados do país.
Felizmente, nos dias atuais a luta pacífica tem mais condições de triunfar e unificar a sociedade do que a cinquenta anos atrás. É através dessas mobilizações que conseguiremos alcançar as vitórias contra o autoritarismo e a prepotência de nossos governantes, que até hoje insistem em se perpetuar no poder.

Mário de Miranda