15 de dezembro de 2012

'BEIRA': ASSESSOR DE CRAQUE DE FUTEBOL


Os beiras, parceiros de toda hora dos jogadores brasileiros

  • Como é a vida dos amigos de ídolos do futebol que passaram a assistentes com direito a salário e benefícios.



Barriga com Neymar e Fred em um camarote na Sapucaí
Foto: Arquivo pessoal
Barriga com Neymar e Fred em um camarote na Sapucaí Arquivo pessoal
Quem não gostaria de um emprego com estes benefícios: apartamento com vista do mar, carro importado, roupas de grife, restaurantes da moda e, eventualmente, viagens para o exterior? E com direito aos adicionais fama, sucesso e bajulação. Também estariam disponíveis mulheres (quase sempre) bonitas. O trabalho? Babá-motorista-assistente de jogador de futebol. Não precisa especialização — só paciência. São os abas ou beiras, como Valdeca e Barriga, que acompanham 24 horas por dia (e, especialmente, noite) astros da bola como Wellington Nem e Fred, tetracampeões com o Fluminense.
Para começar, eles odeiam o apelido de “beira”. Acreditam não viver à margem, mas no centro do universo único de um jogador famoso. Gostam de ser chamados pelos nomes, fato raro no meio da boleirada. Valdeca é Valdeir Victor Oliveira. Barriga é o codinome de Rodrigo Andrade, que carrega no corpo a prova da inegociável lealdade. Na impossibilidade de ser irmão natural do artilheiro do Brasileiro, Barriga resolveu dar o sangue para selar a amizade ao fazer uma tatuagem no braço: “Fred, ídolo eterno”.
— A tatuagem é uma homenagem sincera a alguém que é meu irmão. Fred tem irmãos de sangue, mas nossa ligação vai além. Fui eu que fui para todos os lados com ele. Para Belo Horizonte, para a França e, agora, Rio. Moro com ele desde os 12 anos. Sei quando ele está triste, quando está feliz... — garante Rodrigo, 29 anos.
Fred e Barriga são amigos desde que tinham 9 anos e eram vizinhos em Teófilo Otoni (MG). Naquele tempo, tentavam a carreira de jogador e chegaram a jogar juntos no América da cidade mineira. Rodrigo ficou pelo caminho, estatelado na terra de uma fazenda após um tombo inusitado, justamente quando estava a um passo de sair da porteira em direção ao Cruzeiro.
— Havia passado em um teste, aos 12, 13 anos. A apresentação era em janeiro, e voltei à fazenda para aproveitar as férias de dezembro. Aí, fui montar em um burro, caí e quebrei o braço. Fiquei dois meses de gesso! Perdi a chance — lembra Barriga, com forte sotaque mineiro.
Mulheres: pegando o rebote
Rodrigo caiu do burro, o amigo seguiu em frente. Surgiu no América-MG, ganhou fama no Cruzeiro e o mundo no Lyon, da França. Barriga foi atrás. De motorista, cozinheiro, assistente, irmão, confidente, amigo e o que mais fosse necessário. Rodou a Europa e o vínculo virou empregatício. Até hoje:
— Sou eu que faço as coisas. Dirijo, cuido dos gastos e gostos, coisas de casa... Salário? Sim, eu ganho, mas nunca me senti como um funcionário, e nem ele se comporta como patrão.
Berço da multiplicação da amizade, o Facebook expõe a linha do tempo recente de um relacionamento construído antes da primeira vez de Fred na seleção. Naquele momento, Barriga já posava com o jogador e o pai dele, Juarez. Na rede social, ele exibe fotos em frente à Torre Eiffel e segurando o troféu do título carioca de 2012, além de imagens de seu filho, Bernardo, com Fred, na piscina da cobertura do craque, em Ipanema. O garoto, inclusive, frequenta as Laranjeiras e os pôsteres de campeão com o Fluminense desde o Brasileiro de 2010. Em outra foto, Barriga está no camarote da Brahma na Sapucaí com seu ídolo eterno e a maior estrela do momento: Neymar.
Acostumado ao jet set boleiro, Valdeca estava sentado ao lado de Wellington Nem na festa da premiação do Brasileiro, em São Paulo. Não foi a primeira vez em que andou de avião. Nunca havia entrado em uma aeronave e muito menos saído do país até o Fluminense enfrentar o Boca Juniors em Buenos Aires, na Libertadores:
— Foi o Nem que me proporcionou isto.
O jovem atacante proporcionou muito mais ao extrovertido Valdeca, de 26 anos. Agora, ele vai tirar passaporte e ter a carteira assinada. O salário, não revela, mas é muito mais do que pensou que ganharia na vida inteira.
— Éramos amigos de Campo Grande, e ele precisava ir aos treinos em Xerém. Comecei a levá-lo em um Fiat Tempra que eu tinha. Depois, comecei a levar a família aos jogos. Ele se profissionalizou e eu disse, na boa, que tinha a intenção de trabalhar com ele depois que se firmasse em um grande clube — conta Valdeir.
É ele quem acorda Nem, dá remédio, leva para o treino, busca nos jogos. O jogador chamou o amigo para morar no apartamento do Recreio. Valdeca diz que é muita responsabilidade:
— Imagina se ele perde um treino? Ele virou minha mulher e eu a dele, mas é brincadeira, hein? Ele é noivo...
A aliança de Nem significa liberdade para Valdeca. As mulheres que dão em cima do atacante vão para escanteio. Valdeca pega o rebote.
— Sempre tem, né?
‘Operador logístico’ de Vágner Love já trabalhou com Athirson e Felipe
“De todas as cidades e países que conheci, Moscou é a de que mais gosto. A Praça Vermelha, o Kremlin... E, apesar do frio, a cidade é ainda mais bonita e gostosa no inverno”. Aos 34 anos, Luciano de Lima fala com propriedade. Funcionário público, sabe que seu trabalho dificilmente lhe daria a chance de conhecer tantos lugares. Mas, como assessor, ou “operador logístico”, de ídolos do futebol, muitas portas se abrem. Ao contrário de outros facilitadores da vida de craques, cuja amizade inicial com o jogador levou ao trabalho, ele fez caminho inverso.
Luciano se tornou um especialista desse mercado — um beira nômade — e vem fazendo carreira na área: já assessorou o ex-lateral Athirson, o meia Felipe, do Vasco, e há quatro anos é companhia inseparável de Vágner Love.
À exceção das finanças, Luciano é o responsável pela rotina do camisa 9 do Flamengo funcionar: leva o carro do atacante aos estádios, reserva passagens e hotéis, ajuda a fazer sua agenda e recebe e administra convites variados. Com Love e Athirson, já visitou, a trabalho ou de férias, mais de uma dezena de países.
— Como o campeonato russo tem intervalos longos, conheci Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, Inglaterra, França... Já fui aos EUA, são culturas que não conheceria. No último jogo do Vágner lá, um CSKA x Lille, a sensação térmica era de 14 graus negativos.
Se alguém pensa que a vida de um craque de futebol, fora das concentrações, é uma sucessão de peladas, samba e mulheres, Luciano dá o depoimento de quem vive esta rotina por dentro: é assim mesmo:
— Quando comecei a trabalhar com o Vágner, ele estava se divorciando. O jogador brasileiro que atua na Europa, quando vem de férias para o Brasil, quer aproveitar ao máximo. E ele, solteiro, não era fácil. Saía todos os dias. Claro que sobrava para mim também (risos). Hoje o Vágner está casado de novo, está sossegado. É um cara que gosta de samba, do povo, tranquilo
 
http://oglobo.globo.com/esportes/os-beiras-parceiros-de-toda-hora-dos-jogadores-brasileiros-7064688#ixzz2FAp0TKZy 

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