15 de novembro de 2012

QUEM FOI MALBA TAHAN?


O homem que criava

Dedicado às letras e ao ensino, Malba Tahan conseguiu levar para as salas de aula uma Matemática tão curiosa quanto seu nome

André de Faria Pereira Neto e Pedro Paulo Salles

Pouca gente sabe que por trás de Malba Tahan, o nome do autor do conhecido livro O homem que calculava, publicado pela primeira vez em 1937 e que se encontra na 70ª edição, se esconde o brasileiro Julio Cesar de Mello e Souza (1895-1974). Em geral, seus leitores ficam convencidos que ele foi um escritor árabe que publicou seus livros em Bagdá no século XIX, e que eles chegaram ao público brasileiro graças ao tradutor Breno de Alencar Bianco – outra de suas invenções. Estas são, pelo menos, as informações que constam nas primeiras páginas de seus livros. Depois da dedicatória e dos comentários do tradutor, o leitor se diverte e aprende Matemática por meio de histórias, problemas e desafios, muitos deles protagonizados por Beremiz.
Mas por que um brasileiro escolheu exatamente um personagem do mundo árabe para tentar fazer com que a Matemática se tornasse algo divertido e curioso?
Julio Cesar nasceu no dia 6 de maio de 1895 no Rio de Janeiro e passou sua infância em Queluz, cidade do estado de São Paulo. Filho de uma família sem recursos, com oito irmãos, não tinha brinquedos. Por esta razão, colecionava e se divertia com sapos. Como qualquer criança, dava nomes aos seus animais de estimação, atribuindo-lhes uma identidade particular. O pai era um modesto funcionário do Ministério da Justiça, e a mãe era professora primária. Em sua casa funcionava uma escola que recebia numa mesma sala crianças de diferentes faixas etárias e níveis escolares. Graças a esta influência, quase todos os seus irmãos seguiram o magistério. Com cerca de 11 anos de idade, Julio Cesar foi morar no Rio de Janeiro para estudar no Colégio Militar e depois no Colégio Pedro II. Formou-se professor pelo Instituto de Educação, e depois em Engenharia pela Escola Politécnica.
Até 1925, Julio Cesar era um modesto professor de Matemática que trabalhava em diferentes colégios públicos e particulares e também como jornalista. Começou a trabalhar no jornal O Imparcial em 1918. Enquanto atuava na redação, escreveu um conto curto para ser lido no bonde e decidiu mostrá-lo ao redator. Constatou que o conto havia sido colocado sob um peso de chumbo na mesa do redator, para a folha não voar. No dia seguinte, o chumbo continuava em cima da folha ainda intocada. Analisando os motivos que levavam o redator a não publicar seu conto, tirou-o de baixo daquele peso e substituiu seu nome, que estava no pé da folha, por outro nome inventado na hora: R. V. Slade. Virou-se para o redator e disse: “Aquele conto que escrevi e lhe dei na semana passada era muito fraco mesmo. Não valia nada. Eu acabo de descobrir este escritor americano formidável! Ele é muito curioso! Então eu traduzi este conto, que é desconhecido no Brasil”. O conto acabou sendo publicado naquela semana, e com destaque na primeira página.
Apesar de o país estar vivendo um movimento de valorização da cultura nacional – à época, o meio artístico repercutia a Semana de Arte Moderna de 1922 –, Julio Cesar chegou à conclusão de que deveria criar um pseudônimo estrangeiro se quisesse ter sucesso como escritor. Como a civilização árabe havia se notabilizado na Matemática e na Literatura, escolheu um nome árabe. Pragmático, afirmou no depoimento prestado ao Museu da Imagem do Som no dia 25 de Abril de 1973 que esta opção foi feita friamente. Segundo ele, “não houve inspiração nenhuma!” Escolhido o pseudônimo, Julio Cesar passou a estudar com afinco a cultura da sociedade árabe.
O personagem Malba Tahan nasceu em 1925 com a publicação de seu primeiro livro: Contos de Malba Tahan. Segundo ele, Malba seria o nome de um oásis, enquanto Tahan significa aquele que prepara o trigo. Suas histórias revelam um profundo conhecimento da cultura, da história e da geografia do Oriente, apesar de ele nunca ter visitado qualquer país dessa região. Durante 15 anos, ninguém suspeitou que Malba Tahan fosse, na verdade, Julio Cesar. Aos poucos, a criatura se confundia com seu criador, e o professor Julio Cesar de Mello e Souza passou a ser chamado por onde andava de professor Malba Tahan.
O sentido geral de sua obra, composta de 117 livros publicados em menos de 25 anos de vida literária, era um só: tornar a Matemática algo divertido, curioso e associado à vida real. No seu entender, as teorias matemáticas complicadas e desvinculadas da realidade do aluno fazem com que ele passe a sentir uma verdadeira aversão a esta disciplina. Pregava, há 60 anos, que a Matemática fosse ensinada de forma curiosa, divertida, recreativa, como propõem os títulos de seus livros didáticos. Com eles, o aluno é levado a descobrir por si mesmo o conhecimento, tornando-o válido e significativo. Ideias como estas podem parecer banais nos dias de hoje, mas revelam o enorme pioneirismo de suas proposições.
Sua visão sobre o ensino da Matemática talvez justifique o fato de Julio Cesar ter criado seu principal personagem: Beremiz, um cidadão pobre que aprendeu a contar premido pelas exigências da vida cotidiana. Um calculista com excelente memória e sólidos princípios morais e éticos. Um personagem árabe, e não europeu. Um homem do povo, e não um califa. Alguém que veio de uma aldeia, não de uma cidade. Um empregado, um pastor, e não um dono de terras.
Beremiz é um personagem encantador, que nunca existiu de fato, mas, graças a Julio Cesar, está vivo na memória e na literatura, como Aladim e Peter Pan. Diferentes gerações de jovens e de adultos encontraram inspiração em suas histórias, compartilhando seu amor pela magia dos números. O lugar que Beremiz ocupa nas histórias de Julio Cesar revela o esforço do autor em valorizar o conhecimento leigo, não sistematizado, ressaltando sua eficiência e sua utilidade para a sociedade. Assim, o criador inventou uma criatura para transmitir seus valores, sua visão de mundo e sua concepção didática de Matemática.
Julio Cesar faleceu no Recife no dia 18 de Junho de 1974, vítima de um infarto fulminante. Estava lúcido e extremante produtivo, tanto que havia se deslocado para Pernambuco a fim de fazer conferências. Suas palestras continuavam atraindo muita atenção, e sua performance era comparável à de um verdadeiro comunicador de massa. Além disso, escrevia uma coluna diária no jornal carioca Última Hora. Estava aposentado depois de ter lecionado por muitos anos no Instituto de Educação, no Colégio Pedro II e na Faculdade de Arquitetura da atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Malba Tahan é considerado atualmente, ao lado de Sam Loyd, Yakov Perelman e Martin Gardner, um dos mais importantes popularizadores da Matemática no mundo. Ele é tido como um dos pais da atual etnomatemática, que busca conhecer as regras e tradições matemáticas utilizadas por diferentes grupos étnicos e culturais. A versão em língua estrangeira de O homem que calculava já pode ser encontrada em diferentes países da Europa, da América e da Ásia.  Malba Tahan e Beremiz estão chegando a lugares onde Julio Cesar nunca esteve. Dos 117 livros que publicou, apenas 17 estão atualmente disponíveis para o público brasileiro. Outros devem ser reeditados brevemente.
Cabe lembrar que o sonho de Malba Tahan de promover a humanização do ensino da Matemática ainda não foi realizado. Apesar do esforço de inúmeros educadores, a Matemática continua sendo ensinada, em linhas gerais, da mesma forma que Malba Tahan condenou 60 anos atrás. Entre as instituições que estão voltadas para o objetivo de Malba Tahan destacam-se a Sociedade Brasileira de Educação Matemática e o Círculo de Estudo, Memória e Pesquisa em Educação Matemática, da Faculdade de Educação da Unicamp. Outros professores têm publicado livros didáticos, desenvolvido pesquisas, publicado artigos ou defendido dissertações de mestrado e teses de doutorado analisando ou aproveitando diferentes dimensões de sua obra. Esta é uma prova de que o trabalho de Julio Cesar continua inspirador. Seu acervo pessoal está depositado na Faculdade de Educação da Universidade de Campinas, e boa parte de sua vida e obra estão disponíveis para o público em um site recém-lançado pela família e por admiradores do autor.

André de Faria Pereira Netoé pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e Pedro Paulo Salles é professor da Universidade de São Paulo.
fonte:  Revista História Viva

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