26 de novembro de 2012

DESCASO COM INDÍGENAS NO RIO DE JANEIRO


Para gringo não ver

Após duas liminares cassadas pela Justiça Federal, situação da Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, é crítica. Líderes indígenas falam sobre a ordem de despejo que paira sob suas cabeças desde outubro

Gabriela Nogueira Cunha
20/11/2012
  • Mais de 17 etnias indígenas vivem na Aldeia Maracanã, da qual eles prometem não sair sem lutar
    Mais de 17 etnias indígenas vivem na Aldeia Maracanã, da qual eles prometem não sair sem lutar
    A reforma urbano-paisagística no entorno do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, tem gerado transtorno e, claro, queixas. Os problemas são muitos e tendem a continuar aparecendo, imersos em polêmica. Na terça-feira passada, por exemplo, foram cassadas pelo TRF da 2ª Região duas liminares que impediriam a demolição do prédio onde funcionou o Museu do Índio, entre 1910 e 1978; assim como a remoção dos cerca de 20 indígenas que vivem no terreno apelidado de Aldeia Maracanã. A situação ali é crítica. Parte do muro da propriedade já foi derrubada para dar espaço ao maquinário que está prestes a funcionar de olho nos preparativos para a Copa do Mundo de 2014, mas os moradores do espaço prometem não arredar o pé sem fazer barulho.
    Em protesto à remoção dos índios, centenas de pessoas deram a volta no Estádio Mário Filho, no início do mês. Aos gritos de “o Maraca é nosso”, os manifestantes defendiam a permanência da aldeia na região. O vice-cacique Guarapirá Pataxó, um dos líderes da comunidade, explica que a ideia dos moradores da área é preservar o patrimônio e transformá-lo em um Centro Cultural Indígena. “Isso aqui são mais de dezessete etnias em uma única aldeia. Ninguém nunca conseguiu, em nenhum lugar do Brasil, reunir tantas etnias em um só lugar. É um ato de união e de força. Nós somos um ponto de referência e eles estão querendo acabar com isso aqui na marra. Mas estamos aqui para lutar, uma luta de ética e não de arco e flecha. Ninguém jamais veio aqui, mas nós estamos aqui de braços abertos para dialogar”.
    Construído em 1910, o prédio é tombado pelo decreto municipal nº 20.048, que proíbe a demolição de qualquer edificação anterior a 1937
    Construído em 1910, o prédio é tombado pelo decreto municipal nº 20.048, que proíbe a demolição de qualquer edificação anterior a 1937
    O conflito começou em outubro de 2012, quando governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB) confirmou a concessão do Maracanã e seu entorno à iniciativa privada. A decisão incluía a demolição do antigo museu para criar uma área de mobilidade e circulação de pessoas durante a Copa. Após uma série de declarações controversas como “o prédio não tem qualquer valor histórico, não é tombado por ninguém, vamos derrubar" e “isso não é problema meu”, o governador ganhou alguns inimigos. Até mesmo a FIFA entrou na roda da discussão, alegando que a demolição do prédio – que pertencente ao Ministério da Agricultura e está localizado dentro de um terreno com cerca de 14 mil metros quadrados – nunca foi uma exigência da entidade internacional, informação que, a princípio, foi passada pela assessoria do governo.
    Ao suspender as liminares, a desembargadora federal Maria Helena Cisne, presidente do TRF2, destacou que não existem documentos, no processo, que comprovem o tombamento do imóvel como patrimônio histórico e artístico. Apesar de o decreto municipal nº 20.048 proibir a demolição de qualquer construção que tenha sido edificada até 1937. O prédio que abrigou o Museu do Índio e hoje está no centro da polêmica no entorno do Maracanã foi erguido em 1910. Por conta disso, o defensor público André Ordacgy entrou com recurso de embargos de declaração, na última sexta-feira (16), para esclarecer a situação e tentar reverter as cassações das liminares que favoreciam os moradores. 
    Em ato pacífico contra a demolição do Museu do Índio, manifestantes foram solidários aos índios guarani-kaiowá, exigindo demarcação de terras e respeito aos direitos humanos
    Em ato pacífico contra a demolição do Museu do Índio, manifestantes foram solidários aos índios guarani-kaiowá, exigindo demarcação de terras e respeito aos direitos humanos
    Manifestação
    O ato que tomou as ruas no entorno do estádio, fechou a radial oeste e parou o trânsito no início do mês era solidário também a uma causa que vem agitando o país nos últimos meses: a situação dos índios guarani-kaiowá, no Mato Grosso do Sul. Bandeiras e gritos de guerra exigiam a demarcação de terras e respeito aos direitos humanos. O jovem estudante Davson Oliveira, de 16 anos, acredita que a mobilização ganhou força graças às redes sociais. Aliás, credita a ela seu próprio engajamento e não poupa críticas à grande mídia. “Eu fiquei sabendo [do ato] pelo Facebook, até porque nenhuma mídia iria divulgar isso. Eu vim aqui pela primeira vez durante a Rio+20, quando eles debateram um pouco da situação deles, mas agora que ficou mais crítico vim prestar meu apoio, não só à Aldeia Maracanã, mas também aos guarani-kaiowá. A rede social está sendo fundamental, por ser mais acessível e se propagar mais rápido, gerando uma maior visibilidade”.
    Vera Couto é assistente social e sempre lutou pelos direitos humanos, mas além de levantar esta bandeira, chegou à aldeia de rosto pintado para reivindicar um direito próprio: “além dos direitos humanos das etnias indígenas, estou lutando pela minha identidade cultural que foi apagada. Tenho descendência dos índios da região de Rio Bonito, na Região dos Lagos”.
    Polêmica envolvendo a Aldeia Maracanã começou quando a concessão do Estádio Mário Filho e seu entorno à iniciativa privada foi anunciada pelo governador Sérgio Cabral
    Polêmica envolvendo a Aldeia Maracanã começou quando a concessão do Estádio Mário Filho e seu entorno à iniciativa privada foi anunciada pelo governador Sérgio Cabral
    A Aldeia Maracanã
    Caminhando sobre a terra batida que acompanha o visitante ao lado de um extenso muro branco, na Rua Mata Machado, vê-se o desenho de um índio na parede – imagem que se projeta cada vez mais, na medida em que o passante se aproxima do interior da propriedade. Da porta, a vista principal é de uma tenda de palha, um abrigo de sapê que dá para uma descida íngreme mais à frente, que parece culminar numa floresta particular. No interior do prédio, as paredes são enfeitadas e objetos típicos e de uso pessoal demonstram que o lugar é habitado.
    A situação dos índios que moram no local ficou mais crítica há poucas semanas, quando a água foi cortada e eles passaram a depender da ajuda da população engajada para receber suprimentos básicos. Moradora da aldeia há três anos, Vãngri Kaingang relata que o apoio da sociedade é crucial e comovente. “Estou emocionada. Nunca imaginei tanta força. Eles querem estar aqui dentro, estão participando dos nossos rituais e temos recebido muitas doações. A gente percebe que a sociedade esta ciente da nossa importância social, que a nossa história esta atrelada à deles. E sabemos que eles estarão aqui ate o fim. A situação é um desrespeito não só com povos indígenas, mas com a sociedade”.
     FONTE: Revista História Viva

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