19 de novembro de 2012

BIDA AGUARDA ANULAÇÃO DE SENTENÇA

Condenado por morte de Dorothy espera anulação de julgamento

AGUIRRE TALENTO
DE BELÉM


Condenado sob acusação de ser um dos mandantes do assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, em 2005, o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, 42, afirma que as provas contra ele foram "forjadas".
Ele diz esperar que o STF (Supremo Tribunal Federal) anule seu julgamento.
Bida, como é conhecido, era dono de um lote de terra em Anapu (766 km de Belém) visado por Dorothy para a criação de um assentamento. Hoje ele cumpre pena em regime semiaberto.
O caso voltou à tona depois que seu advogado, Arnaldo Lopes, conseguiu que a Justiça do Pará ouvisse uma nova testemunha, o policial federal Fernando Raiol, que participou das investigações.
Tarso Sarraf/Folhapress
O fazendeiro Bida, condenado por ser o mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang
O fazendeiro Bida, condenado por ser o mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang
Raiol disse que Bida é inocente e que a arma do crime foi fornecida pelo então delegado de Polícia Civil de Anapu, Marcelo Luz, fato novo na história. O delegado não quis comentar.
O depoimento foi anexado a um habeas corpus no STF, que tenta anular a condenação dele. Leia trechos da entrevista.
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Folha - Espera que o depoimento reverta a condenação?
Bida - Estou acreditando na Justiça de Brasília, porque eu já vi tanta coisa acontecendo nesse processo para me prejudicar que não dá pra acreditar na Justiça daqui [do Pará]. Eu fui absolvido, aí recorreram e me condenaram depois, sem fundamentos.
A prova que tem é uma delação premiada. Primeiro forjaram um documento contra mim. Quando perceberam que não tinha fundamento, deram delação premiada [de Amair Feijoli, o Tato, condenado como intermediário entre executores e mandantes].
Forjaram como?
Eu me entreguei à Polícia Federal [em 2005] e até aí não tinha acusação contra mim. Fui prestar depoimento à Justiça e os promotores Sávio Brabo e Lauro Freitas apareceram com uma prova e disseram: "Não adianta negar. Tem um bilhete da irmã Dorothy dizendo que, se ela morresse, era você que tinha mandado matar".
Eu até gelei na hora. Quando o doutor Américo [Leal, advogado] olhou, era um bilhete de 2001 forjado, porque eu só fui morar em Anapu em 2003. Aí tiraram isso do processo e ficaram sem prova, iam ter que me soltar.
Correram pro Tato e fizeram proposta de delação premiada pra ele dizer que eu e Regivaldo [Galvão, o Taradão] tínhamos mandado [matar Dorothy], que cada um ia dar R$ 25 mil. [O promotor Sávio Brabo diz que não houve o bilhete.]
Não houve essa oferta de R$ 50 mil para matar Dorothy?
Ninguém nunca falou nisso. A partir da delação eles arrumaram a prova de me condenar, não tem outra. É diz-que-me-diz. Tato depois falou que, para não morrer na cadeia, teve que tentar isso [delação premiada].
Nessa época o senhor ouviu a acusação de que a arma foi dada por Marcelo Luz [delegado de Polícia Civil de Anapu]?
Não. Marcelo Luz mandou Tato me chamar para conversar com ele. Chegando lá, o delegado falou: "Todos os fazendeiros estão me dando R$ 10 mil. Quando o pessoal da irmã Dorothy invade, eu tiro". Eu falei para ele que já tinha ouvido falar dessas invasões, por isso entrei na Justiça e consegui uma liminar de reintegração de posse, aí não precisava pagar.
Essa conversa com ele foi em 2005 mesmo?
Foi. Poucos dias depois acontece a morte da irmã Dorothy. Eu cheguei em Anapu no dia 11 e fui para a minha fazenda no dia 12, soube à tarde que ela tinha morrido. Um dia depois o delegado já pediu a minha prisão preventiva. Por quê? Fui o único que não deu os R$ 10 mil a ele.
Chegou a conhecer Dorothy?
Nunca vi, rapaz, não tive nem o prazer de conhecer.
Te preocupava poder perder a fazenda para Dorothy?
Como é que me preocuparia se eu tinha a liminar? Quem quiser entrar, entra, mas a polícia vai tirar. A juíza me concede uma liminar e eu vou matar a pessoa?

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