22 de outubro de 2012

REGRAS DE PORTUGUÊS

Você conhece mesmo a nova ortografia?


POR Thaís Nicoleti

Conforme o planejado, pretendo abordar as mudanças decorrentes do tão criticado Acordo Ortográfico. É mesmo difícil compreender a utilidade de fazer uma reforma ortográfica que não parece voltada à solução de problemas.
É bem verdade que seus idealizadores não usam o termo “reforma”. Dizem eles que foi feito um acordo de unificação,  o que explica o fato de termos adaptado a nossa acentuação gráfica à do português europeu. Suprimir o trema e o acento de “ideia”, por exemplo, é fazer o que os portugueses já vêm fazendo há tempos.  Isso não atendeu à solução de um problema nosso, mas foi ao encontro do projeto de unificação.
Muita gente tem reclamado da mudança pelo simples fato de … ser uma mudança! Para que mudar se podemos continuar como estamos? Essa resistência é normal e esperada. As pessoas mais velhas tendem a não ter paciência para reaprender as regras, o que também é normal.
Fazer essas pequenas adaptações, entretanto, não é nenhum bicho de sete cabeças (sem hífen agora). Ao se familiarizarem com as novas regras, as pessoas poderão julgar melhor a conveniência não do acordo em si, mas do seu resultado prático. Será que houve mesmo simplificação? Isso é bom? Do ponto de vista prático, ficou mais fácil ou não? Cada um poderá julgar depois de conhecer bem as novas regras.

A REGRA DO HIATO
Antes das mudanças, usávamos acento no “i” e no “u” tônicos (de pronúncia forte) que faziam hiato com a sílaba anterior. Você sabe o que é “hiato”?
Na fonética, é o grupo de duas vogais contíguas (seguidas) que pertencem a sílabas diferentes (sa-í-da, sa-ú-de, ego-ís-ta). Na linguagem figurada, o hiato é um intervalo ou uma lacuna. Usa-se expressivamente essa palavra (“Há um hiato entre as promessas de campanha e as realizações dos políticos”, por exemplo). Em anatomia, “hiato” é uma fenda no corpo humano. Um gastroenterologista pode explicar bem o que é uma “hérnia de hiato”.
Muito bem. Continuaremos acentuando “saída” e “saúde”, como sempre fizemos. A diferença agora é extrair o acento de palavras como “feiura” e “Bocaiuva”. O grupo de palavras afetadas por essa alteração é muito pequeno, mas devemos reconhecer que essa é uma regra inteligente. Vamos entender por quê.
Se não usássemos acento em “saída”, o hiato se transformaria em ditongo (como se lê em “laico”), logo compreendemos que o acento opera a distinção de pronúncia, motivo pelo qual é muito importante. Veja a distinção entre “saia” e “saía”.
Agora experimente ler “feiúra” – com acento – e “feiura” – sem acento. Pois é: nenhuma diferença. Isso tem uma explicação: embora haja um hiato, é um ditongo que antecede a sílaba tônica (“i” ou “u”). Assim: FEI-U-RA (antes do “u”, aparece o ditongo “ei”), BOCAI-U-VA (antes do “u”, aparece o ditongo “ai”). Essa sequência de vogais conduz a uma pronúncia única, de modo que o acento é inútil nesse caso.  Essa regra altera a grafia do nome de um ponto turístico belíssimo do litoral baiano:
Costa do Sauipe, sem acento
Os nomes próprios de lugares devem ser adaptados sempre que há uma reforma ortográfica. Não se trata de mudar o nome do local, mas de mudar a grafia do nome. Nomes de estabelecimentos comerciais e de pessoas podem ignorar as reformas e acordos ortográficos.

DICA
Não vale imaginar que, em Sauipe, feiura, boiuna, boiuno, Bocaiuva etc., ocorre tritongo. Nada disso. Tritongo é uma sequência de semivogal+vogal+semivogal lida de uma só vez, na mesma sílaba (PA-RA-GUAI, SA-GUÃO). Nas palavras que sofreram alteração, ocorre ditongo (vogal + semivogal) + vogal. Havendo duas vogais (inteiras), há duas sílabas – daí o hiato.

TODA REGRA TEM EXCEÇÃO?
Bem, vamos lá. Diga rápido qual é a palavra da língua que tem uma só consoante e quatro vogais? Pode ser que haja mais alguma, mas foi essa sonoridade do nome do Estado do Piauí que inspirou os criadores da (ótima) revista homônima.
Muito bem: PI-AU-Í. Temos aqui um caso muito parecido, pois o ditongo antecede o hiato. A diferença é que a palavra é oxítona. As oxítonas mantiveram o acento. Assim:

Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí – com acento
Para quem se encanta com as descobertas arqueológicas, o Piauí é um prato cheio, mas o Estado, embora não tenha muitas praias, conta com o belíssimo delta do rio Parnaíba (vale o passeio!).
Delta do rio Parnaíba, no Piauí – com acento
Só para finalizar, veja como ficaram algumas palavras:
Esta é a sucuri, também conhecida como boiuna – agora sem acento
Este é o tuiuiú, oxítona, com acento

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