24 de setembro de 2012

COMPRA DE VOTOS NO NORDESTE


Deputado explora em campanha obras contra a seca liberadas pelo pai ministro

Em Petrolina, no sertão de Pernambuco, grupo político liderado pelo ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho (PSB), usa a promessa de água e asfalto para angariar votos e eleger Fernando Coelho Filho (PSB) para a prefeitura da cidade

24 de setembro de 2012
Fábio Fabrini, de O Estado de S.Paulo

PETROLINA - Castigado pela pior seca dos últimos 30 anos, o sertão de Pernambuco vive em pleno 2012 a reedição de um clássico enredo eleitoral do Nordeste. Para eleger o deputado federal Fernando Coelho Filho (PSB) prefeito de Petrolina, o grupo político liderado pelo ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho (PSB), pai do candidato, usa água para angariar votos. 
 
No mesmo dia em que tratores levaram benfeitorias a bairro, foram levadas faixas do candidato - Wilson Pedrosa/AE
Wilson Pedrosa/AE
No mesmo dia em que tratores levaram benfeitorias a bairro, foram levadas faixas do candidato
 

Em campanha, o candidato explora amplamente obras para levar adutoras e reservatórios à vasta caatinga do município, executadas pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) a partir de emendas que ele próprio apresentou e a pasta comandada pelo pai, responsável pela estatal, liberou.
O projeto da família inclui a ascensão de Fernando Filho à prefeitura num primeiro passo e, em 2014, a candidatura do ministro Bezerra ao governo pernambucano.
Na Superintendência da Codevasf em Petrolina, responsável por todo o Estado, nada menos que 95% dos pagamentos gerados a partir de emendas em 2011 (R$ 3,3 milhões) foram para projetos apadrinhados pelo deputado. Em 2012, o porcentual alcança 70% do total (R$ 6,2 milhões). Os dados constam de relatório da própria companhia, obtido pelo Estado por meio da Lei de Acesso à Informação.
A verba bancou a manutenção e a ampliação dos canos que levam água às plantações da cidade, grande produtora de frutas, e às casas dos sertanejos, além de barragens e barreiros para o armazenamento da chuva. Também garantiu a recuperação de vias e a entrega de motores e máquinas agrícolas em eventos promovidos pela Codevasf, que badalaram o deputado na pré-campanha. Indicado pelo parlamentar, o superintendente da estatal em Petrolina, Luiz Manoel de Santana, chegou a levar, em junho, não só Fernando Filho, mas seu vice, Gennedy Patriota (PTB), para a distribuição de motoensiladeiras (máquinas para uso na agropecuária) em comunidades rurais.
O sucesso de Fernando Filho na liberação de dinheiro sob a gestão do pai é um dos principais trunfos do programa eleitoral. Graças a ele, segundo o locutor da TV, a água chega ao "homem do Sequeiro", como é chamada a extensa região ainda não alcançada por canais de irrigação.
"Junto ao Ministério da Integração, garantimos os recursos para a construção das barragens de Boa Sorte e Barreiros, que vão garantir a água. E, em Cruz de Salinas, com emenda nossa, foram investidos R$ 83 mil para limpeza e recuperação das barragens", diz o parlamentar na TV, elogiando a gestão do pai. "Petrolina se orgulha de ter um ministro filho da terra, que traz para cá os recursos necessários para o seu desenvolvimento. Os projetos irrigados nunca receberam tantos recursos. O Nilo Coelho (um desses projetos, que leva o nome do ex-senador tio de Bezerra) tinha um investimento anual inferior a R$ 6 milhões. Em dois anos de Fernando Bezerra na Integração Nacional, os investimentos já passam de R$ 65 milhões", diz o deputado na televisão.
O deputado também explora na campanha a pavimentação das vias, iniciada no período eleitoral e prevista para acabar dias antes do pleito. Segundo moradores da área, tratores contratados pela Codevasf chegaram ao mesmo tempo em que a tropa de campanha fincou bandeiras azuis do candidato em toda a área. A fina camada de piche recobre ruas sem rede de drenagem ou esgoto, cujos terrenos, não raro, são cortados por uma língua preta, de água suja.
O Ministério Público diz que a Lei Eleitoral não veda a prática, por se tratar de atendimento emergencial, mas critica a ênfase na ação. "Se sabem que há seca, por que não fizeram antes? Isso não ocorre só de quatro em quatro anos", diz a promotora de Justiça em Petrolina Ana Cláudia Carvalho.

FONTE: ESTADÃO

Reações:

0 comentários: